
Descubra se a câmara hiperbárica realmente “alimenta” o tumor ou se é a aliada que faltava contra os efeitos da radioterapia. Mitos e verdades explicados por um oncologista.
Se você ou alguém que você ama está enfrentando o tratamento oncológico, é provável que já tenha ouvido falar da Oxigenoterapia Hiperbárica (OHB). E, junto com a indicação, quase sempre vem a dúvida: “Mas doutor, o oxigênio não vai fazer o câncer crescer mais rápido?”
Essa pergunta é legítima. Afinal, aprendemos que o oxigênio é o combustível da vida. Mas, na oncologia moderna, a ciência nos mostra um cenário bem diferente — e muito mais esperançoso.
O Mito: O oxigênio “alimenta” o câncer?
A ideia de que o oxigênio extra poderia acelerar o crescimento tumoral surgiu de suposições antigas. No entanto, estudos robustos e revisões sistemáticas (incluindo dados discutidos em grandes congressos como a ASCO) mostram que a OHB não promove o crescimento de tumores, não acelera metástases e não protege as células cancerígenas.
Na verdade, o que o câncer gosta é de hipóxia (falta de oxigênio). Ambientes com pouco oxigênio tendem a ser mais agressivos e resistentes à radioterapia. Quando usamos a câmara hiperbárica, estamos, muitas vezes, tornando o ambiente menos favorável ao comportamento errático do tumor e mais receptivo ao tratamento.
A Verdade: O “bálsamo” para as sequelas da radioterapia
A radioterapia é uma ferramenta incrível para destruir células cancerosas, mas ela pode ser dura com os tecidos saudáveis ao redor. É aqui que a câmara hiperbárica brilha.
Muitas vezes, a radiação causa uma inflamação crônica e diminui a vascularização (o fluxo de sangue) em áreas como a mandíbula, bexiga ou intestino. Isso pode gerar:
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Osteorradionecrose: Morte do tecido ósseo (comum em câncer de cabeça e pescoço).
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Cistite Actínica: Sangramento e dor na bexiga após radioterapia na pelve.
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Proctite Actínica: Inflamação e sangramento retal.
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Feridas de difícil cicatrização: Tecidos que perderam a capacidade de se regenerar sozinhos.
A câmara hiperbárica funciona como um “estimulante de vida” para esses tecidos. Ao respirar oxigênio 100% puro sob pressão aumentada, o oxigênio se dissolve no plasma e chega onde o sangue quase não passava mais. Isso estimula a angiogênese (criação de novos vasos sanguíneos) e a cicatrização profunda.
Quando ela é realmente indicada?
Não é todo paciente oncológico que precisa de hiperbárica. Ela é uma terapia adjuvante. As principais indicações incluem:
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Reparo de lesões radioinduzidas: Quando a radioterapia deixou sequelas dolorosas ou crônicas.
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Pré e pós-operatório em áreas irradiadas: Para garantir que a cirurgia cicatrize bem.
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Infecções graves: Que podem surgir em pacientes com imunidade comprometida.
Cuidados e Segurança
A OHB deve ser feita em clínicas especializadas e com acompanhamento médico. Existem contraindicações específicas (como certos tipos de quimioterapia em uso simultâneo ou pneumotórax não tratado) que precisam ser avaliadas.
Conclusão
A câmara hiperbárica não é “comida para o tumor”. Ela é tecnologia médica a serviço da qualidade de vida e da longevidade. Ela permite que o paciente complete seu tratamento com menos dor e recupere funções que a doença tentou tirar.
