ctDNA e Doença Residual Mínima: Quando o Sangue “Vê” a Recaída Antes da Tomografia

Entenda o conceito de biópsia líquida, para quem faz sentido e por que o monitoramento molecular é o futuro da oncologia.

Na oncologia tradicional, o sucesso de uma cirurgia é avaliado por exames de imagem, como a tomografia ou o PET-CT. O problema? Esses exames só conseguem detectar “massas”. Se restarem alguns milhões de células cancerígenas invisíveis ao olho humano — a chamada Doença Residual Mínima (MRD) — a imagem dirá que está tudo bem, enquanto o câncer se prepara para voltar.

É aqui que entra o ctDNA (DNA tumoral circulante), a biópsia líquida que está revolucionando o pós-operatório.

O “Farejador” Genético

O ctDNA são fragmentos de código genético que o tumor libera no sangue. Através de tecnologias de sequenciamento ultra-sensíveis, conseguimos identificar esses fragmentos após a cirurgia.

Se o sangue está “limpo” (MRD negativo), as chances de cura apenas com a cirurgia são altíssimas. Se o sangue está “sujo” (MRD positivo), sabemos que há células microscópicas circulando, mesmo que a tomografia esteja perfeita.

Por que isso é um divisor de águas?

  1. Antecipação: O ctDNA pode detectar a recidiva meses (às vezes mais de um ano) antes de qualquer nódulo aparecer na imagem.

  2. Personalização da Quimioterapia (Escalonamento): Em alguns cânceres, como o colorretal, já estamos discutindo: se o ctDNA é negativo após a cirurgia, será que o paciente realmente precisa de quimioterapia? Ou podemos poupá-lo da toxicidade?

  3. Monitoramento em Tempo Real: Ao contrário de uma biópsia de tecido, o sangue pode ser coletado repetidamente para monitorar se o tratamento está funcionando.

Para quem faz sentido hoje?

Embora seja o futuro, o uso do ctDNA para MRD já é uma realidade clínica crescente em:

  • Câncer Colorretal: Provavelmente onde temos as evidências mais robustas.

  • Câncer de Pulmão e Mama: Estudos avançados orientando decisões de imunoterapia e terapias alvo.

  • Bexiga: Útil para prever resposta antes da cirurgia definitiva.

O Desafio: O que fazer com a informação?

O maior dilema médico atual é: se o sangue acusa ctDNA positivo, mas a tomografia não mostra nada, devemos começar a quimioterapia imediatamente ou esperar o tumor crescer para “vê-lo”? A ciência está correndo para responder se o tratamento precoce da MRD melhora a sobrevida final.

Minha visão de oncologista: O ctDNA é o fim da era do “vamos observar e torcer”. Estamos entrando na era da vigilância molecular ativa, onde o objetivo é a erradicação total, muito antes do inimigo se tornar visível.

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